quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Carlinhos da farmácia

Carlos Miguel Vianna Gutierrez. É possível que muitos não saibam quem foi. Mas Carlinhos das farmácias abrirá um clarão de popularidade e simpatia entre os uruguaianenses.
Natural de Uruguaiana, na fronteira oeste, aposentado, ex-dono de farmácia, personagem popular da cidade, morreu, aos 88 anos, dia 14 de agosto de 2016.
No burburinho de locais que trabalham com saúde, em Uruguaiana, remixa uma bandeira com a generosidade de Carlinhos. Se pensar em farmácia, vai se pensar em Carlinhos. Para ele a farmácia não era um conjunto de paredes, portas e janelas apenas para venda de remédios e medicamentos. Para ele o mundo da farmácia tinha dois olhos. Não só os do comércio, mas também a grandeza da alma preocupada com o doente. Foi um espaço construído com afeto. Uma relação de proximidade e cumplicidade com os clientes, principalmente com os mais necessitados. Ele elevou a compreensão diante de quem precisava, valorizou sempre a pessoa simples, desamparada. Cultuou a virtude dos raros: ajudar ao próximo.
Carlinhos não escreveu nenhum livro, mas se o tivesse escrito, as folhas não estariam em branco – as páginas teriam a bondade como fim. Os dedos dele eram divididos para dar, apoiar, socorrer a população.
Sem os clarões do ensino, mas iluminado pela criteriosa observação de um estudioso inteligente, se transformou em um autodidata. Modelou sua formação e vasta cultura farmacêutica.
Carlinhos começou aos 15 anos como vendedor da tradicional e extinta farmácia União. Depois de muitos anos de luta e esforço, comprou a sua farmácia, construiu sua família, teia de sua existência, tudo graças ao amor pelo trabalho cotidiano, árduo, sempre esquecendo a fadiga para exercer uma fascinação: ler as pequenas letras das cansativas bulas de remédios. Esse conhecimento não era algo que ele sabia, mas o que queria saber nos milhares de indicações que continham os papéis impressos dos medicamentos. Assim, se transformou em “um farmacêutico, um doutor da informalidade”, uma conexão entre a dor e cura das pessoas, com o delicado cuidado de respeitar os limites dessa troca, dessa relação de confiança. Atire a primeira pedra quem não procurou Carlinhos na farmácia por causa de um resfriado, o nariz correndo, uma gripe, uma irritação na garganta, uma dor de barriga, uma ressaca de bebida alcoólica. Foram várias gerações. 
Não é uma questão de justificar, de dizer que está certo ou errado, mas compreender esse atalho de milhares de oprimidos pobres que se socorriam dele na hora difícil da doença. Talvez houvesse outros caminhos, mas eles não enxergavam com facilidade essa assistência. O controle, as regras do mundo, geralmente, não favorecem os mais fracos. Deste modo é que entendemos esses descaminhos e todos os sentimentos e pensamentos que derivam dessa percepção, afinal, é um tempo que vem do que somos, de como somos. Ou como éramos.
Carlinhos recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de Vereadores de Uruguaiana. Um voto de pesar pela sua morte. É o reconhecimento do poder público, representado pelos vereadores, pelo trabalho e contribuição de Carlinhos por mais de 50 anos em defesa da saúde dos uruguaianenses.
Carlinhos é saudade. Mas o seu valor permanecerá cheio de boas energias na memória e coração daqueles que desfrutaram de uma referência amiga, confiável e salvadora.
Deus levou Carlinhos. Seu Carlinhos foi com Deus.
José Luiz Chiarelli, jornalista.

1 comentários:

edimar flores disse... [Responder comentário]

era um sábio e uma pessoa que aparentava uma tranquilidade, lembro de ter falado uma vez com ele, e tinha um olhar que parece que lia nos olhos das pessoas DEUS lhe guarde SEU CARLINHOS.